Diario de Bordo 03 

Península Valdez

Trevelin, cidade onde dormimos fica perto de Esquel, onde existe um centro de esqui chamado La Hoya a cerca de 15 km da cidade. Pela manhã fomos conhecer La Hoya, pouco depois de começar a estrada de terra, você começa a subir por uma estrada alucinante e logo se encontra a mais de 1000 metros chegando na estação. Um vento muito forte deixava ainda mais frio o ambiente e não permitia o funcionamento dos meios de elevação. Após um passeio e algumas fotos, voltamos a Esquel para abastecer a Ranger e seguirmos viagem. Resolvemos seguir para a Península Valdez, um lugar que a tempos tinha muita vontade de conhecer.

A Península Valdez é um santuário da vida marinha do Atlântico Sul. Baleias francas, pingüins, orcas, elefantes e lobos marinhos fazem da península sua moradia em alguns meses do ano, geralmente nas épocas de acasalamento e procriação. Existem cerca de 300 km de estradas de rípio que permitem ao visitante contornar a quase ilha de automóvel. A melhor época para se visitar a região é entre os meses de setembro a novembro. Segundo os seus moradores, nesta época é possível encontrar todos os animais que citamos no ínicio. Também existem uma imensa população de ovelhas, criadas nas estâncias, guanacos, maras - um mamífero somente encontrado na patagonia e muitas espécies de aves. As águas da penínsulas estão entre as melhores do mundo para mergulho, devido a sua transparência. Dentro do sistema da península existem cinco reservas de diferentes espécies marinhas: Ilha dos Pássaros, Punta Pirâmide, Punta Delgada, Caleta Valdez e Punta Norte. Valdez foi declarada pela UNESCO em 1999 “Patrimônio da Humanidade”.

Puerto Pirâmides é uma pequena vila onde existe hospedagem, combustível e alimentação. E de onde saem os passeios para se avistar baleias. Uma dica é cuidar com o combustível. O único local na península onde existe combustível é em Puerto Pirâmides e somente um posto. Procure chegar com o seu tanque abastecido e não se esqueça que você pode chegar a rodar perto de 300 km pela região sem encontrar combustível.

A partir de junho as baleias francas austrais, começam a chegar nas águas da península para os rituais de acasalamento. Como estamos no final de julho, já é uma boa época para tentar conhecer as baleias francas, e após conhecermos La Hoya, pegamos a Ranger e fomos para a Península Valdez. Saindo de Esquel, pegamos rumo leste para Puerto Pirâmides. Alguns quilômetros a mais no odômetro da Ranger e as montanhas com os seus cumes nevados começam a rarear no cenário e a paisagem vai se transformando. Entramos na região que chamam de “Estepe Patagônia”, na realidade este tipo de cenário compõe a maior parte da Patagônia. E o vento sempre sopra na estepe em rajadas fortes e constantes que nunca param. O vento apenas diminui de intensidade, mas nunca para de soprar.

Rodamos quase 800 km cortando a estepe patagônia em cenários e retas incríveis. Por muitos quilômetros acompanhamos o curso do rio Chubut que cede o seu nome a província. Sem mudar o cenário chegamos a Trelew e pouco depois a Puerto Madryn, onde nos encontramos com o Oceano Atlântico num cenário completamente diferente daquele que estamos acostumados a ver no litoral do Paraná e Santa Catarina. A estepe entra no oceano e assim acaba a porção continental da região.

Já anoitecendo damos uma volta por Puerto Madryn e seguimos para Puerto Pirâmides onde chegamos de noite. Na entrada da Península tem que se pagar uma taxa de 25 pesos por pessoa. Alguns quilômetros a frente existem um museu que infelizmente estava fechado quando passamos por lá. Mais alguns quilômetros e chegamos em Puerto Pirâmides. Ficamos em uma cabana localizada um pouco fora da vila de um casal de argentinos que tem uma casa aqui no Brasil em Bombinhas. Um pessoal muito bacana que nos deram muitas dicas sobre a península, além da cabana ser muito legal e por um preço razoável.

Fomos jantar num restaurante indicado pelos donos da pousada. Um lugar bem pitoresco com uma ótima musica ambiente dos inúmeros cd’s do seu dono com as paredes forradas de fotos da Janis Joplin, Jim Morrison, Che Guevara, fotos da família, uma bandeira do Brasil, ossos de baleia e uma enorme lareira no meio da sala. O dono do restaurante, uma pessoa super gente boa, que adora o Brasil, já tendo vindo para cá algumas vezes conhecendo todo o nordeste e com vários cd’s na sua coleção de artistas brasileiros. Após o jantar fomos dormir ansiosos por conhecer a região no dia seguinte.

Acordamos e após um rápido café fomos ao ancoradouro acertar o passeio de barco para ver as baleias. Fui eu e o sr. Jorge dono da pousada, que fez questão de me acompanhar para combinar o passeio e eu pegar o bilhete, pois segundo ele, pode acontecer de chegarem excursões e lotar tudo de uma hora para outra. Fiz a reservas e paguei 80 pesos para os dois lugares. 15 minutos antes do horário programado estamos no local de onde sai o barco para o passeio. Fico animado em ver que não tem muita gente e o barco que vamos fazer o passeio é grande. Embarcamos e quando acho que vamos sair, aparece um monte de gente que acaba lotando o barco. Saímos da praia e logo depois já aparece a primeira baleia e todo mundo corre para fotografar. O piloto e guia vai explicando e um pouco adiante aparecem 3 baleias francas juntas, segundo o guia, tentando o acasalamento. Ficamos algum tempo em volta delas que chegam a ficar a centímetros do casco da embarcação. Segundo o guia nosso barco tem 17 metros e uma delas quase chega a ter o tamanho do barco. Ficamos todos torcendo para que uma das baleias levantasse a cauda para uma bela foto, mas não demos sorte. É um espetáculo incrível de se ver.

Alguns dados interessantes sobre as baleias francas austrais. Sua população é de cerca de 3600 animais. Sua presença na região se extende de junho até dezembro, sendo setembro e outubro os meses de maior concentração. A taxa de crescimento da população é de cerca de 7% anual. Em média as fêmeas tem uma cria a cada 3 anos e a gestação dura 12 meses.

Após o passeio seguimos para Punta Delgada, numa elefanteria, assim chamadas as praias onde os elefantes marinhos se acasalam e criam os seus filhotes. Nesta época apenas os jovens elefantes costumam estar nas praias. Os adultos começam a chegar na região em outubro ficando até março. Nestas épocas as praias ficam lotadas com milhares de elefantes e o acesso é proibido. Como agora a colônia de elefantes estava com poucos animais e jovens, pudemos descer na praia num grupo de 10 pessoas de várias nacionalidades, e um guia e chegar bem perto deles. Numa pedra há uns 50 metros da praia alguns lobos marinhos fazem uma algazarra entrando e saindo da água.

Retornamos com o grupo ao hotel que é o proprietário da elefanteria, onde existe também um farol. Nos despedimos do grupo e seguimos para a Caleta Valdez, onde no verão as orcas costumam se alimentar de lobos marinhos. Nesta época não vimos nenhum animal. Seguindo pelas estradas de rípio, voltamos para Puerto Pirâmides já anoitecendo e tivemos a sorte de avistar e fotografar duas maras, um animal que existe somente na Patagonia além de bandos de guanacos e flamingos em uma pequena lagoa.

Quando chegamos na pousada o senhor Jorge, nos parou para nos oferecer um pão caseiro feito com aveia muito gostoso. Compramos uma cervejas e fizemos nosso jantar na cabana e demos uma geral na Ranger, pois no dia seguinte começaríamos a voltar para casa. No dia seguinte acordamos cedo e iniciamos o nosso retorno. Quem quiser maiores informações da pousada o email é herradurasuites@yahoo.com.ar . Rodamos mais de 1100 km e dormimos novamente em 25 de Julho, local onde pernoitamos na ida. No outro dia rodamos mais de 1300 km em cerca de 14 horas e dormimos num hotel na beira da estrada já perto da fronteira com o Brasil em Fóz do Iguaçu. No dia seguinte após rodar pouco mais de 200 km estamos entrando novamente no Brasil. Mais 500 km e no final da tarde após rodarmos mais de 8500 km estacionamos a Ranger em nossa garagem, agradecendo a Deus por nos ter permitido realizar este sonho sem termos tido nenhum problema, tanto conosco, quanto com a Ranger quanto com todos aqueles que deixamos aqui esperando o nosso retorno. Quanto a mim, creio que o destino me colocou nesta viagem a oportunidade de fazer algo inusitado, que foi viajar somente com um veículo e sem um roteiro definido. Isto me prova que com um bom conhecimento da região, um bom mapa, um bom carro bem revisado e uma boa companhia dá para ir longe... muito longe e nem preciso falar que já voltei pensando na próxima viagem. Quem sabe um passeio bem rápido até a Terra do Fogo ...

 





Elefante marinho


Flamingos














Elefantes marinhos











Estepe Patagônica








Lobos marinhos


Baleia franca








Guanacos





Maras






 

Diário de bordo 01 - Pucón - Chile, 13 de julho de 2003

Diario de Bordo 02 - Trevellin - Província de Chubut - Argentina

 

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