Destinos Cabo Polonio

Terra, Asfalto e Uruguai - As maravilhas do litoral uruguaio

Texto Henry Milléo
Fotos Equipe Terra & Asfalto

Gosto de viajar. Sempre gostei. E não é pelo simples fato de conhecer um novo lugar e novas pessoas, ou de rever algo ou pessoas que me agradam. Gosto da viagem em si. Do pegar a estrada e ver a paisagem passar pela janela do carro, de parar nos postos e restaurantes de beira de estrada para abastecer o tanque, o estômago, ou esticar as pernas. Tenho prazer em viajar e a cada viagem descobrir um novo detalhe que havia passado desapercebido.

Por isso, quando o Márcio me convidou para ir até Cabo Polonio, primeiro aceitei e depois perguntei: "onde diabos fica isso?".

Assim, a equipe Terra e Asfalto, desta vez contanto com as presenças de Márcio, Miguel, Kaminski e eu (Henry), partiu em busca de aventura no Uruguai. E você acompanha agora, passo a passo, o que aconteceu em mais uma expedição a um lugar incrível.

Saímos de Ponta Grossa (eu e o Kaminski) às 4h45 da manhã, e pegamos a BR-101 em Curitiba, para chegar até o Rio Grande do Sul, onde teríamos que passar a primeira noite da jornada até o litoral do Uruguai (que é onde fica Cabo Polonio).

Como tinham assuntos particulares para resolver no Rio Grande, Márcio e Miguel (parece nome de dupla sertaneja), uniram o útil ao agradável, partiram de PG um pouco mais cedo, e ficaram de nos encontrar na cidade de Rio Grande para juntos seguirmos até o Chuí e depois o Uruguai (é claro).

Na primeira etapa da viagem eu e Kaminski íamos trocando piadas, comentando sobre assuntos em voga, revendo as informações da viagem e contando um pouco do que já havíamos visto nesse mundo de meu Deus – o normal dos assuntos em pauta durante uma jornada dessas.

Sempre achei os Campos Gerais de uma beleza única. Mas é ao nascer do sol que se pode perceber todo o esplendor da região. É como se toda natureza estivesse acordando, com as árvores imitando uma espreguiçada, os rios começando a correr e as aves partindo em busca da comida que só os primeiros raios de sol revelam.

Curitiba como sempre nos acolheu de braços abertos, com suas luzes matinais sorrindo sem parar. Logo paramos para o desjejum em uma lanchonete no começo da BR-101 e para preparar o equipamento de filmagem – tudo para registrar cada passo da viagem.

Entramos em Santa Catarina por Joinvile e seguimos sempre pelo litoral. Foi bom rever lugares como Florianópolis, Laguna, Guarda do Embaú e Pinheira, entre outros. O litoral catarinense é fantástico e sempre é uma alegria curtir o visual, mesmo que apenas por alguns instantes.

Já o litoral Gaúcho tem uma tranquilidade sem fim. Uma calma contagiante.

E foi em busca dessa calma que chegamos em Torres e pegamos a rodovia do mar, e deslizamos em direção a Osório, onde teríamos que voltar para a 101. Foi uma boa idéia, pois como o tráfego de ônibus e caminhões é proibido no local pudemos ganhar algum tempo no trajeto.

Chegamos em Osório, nos perdemos um pouco, mas logo encontramos o caminho que nos levaria a Mostardas, nossa primeira parada para descanso.

Mostardas
Nossa primeira parada para pernoite foi em Mostardas, já no Rio Grande do Sul. Cidade pequena, com apenas 10 mil habitantes, mas muito acolhedora.

A colonização do município começou em 1763, quando os primeiros açorianos chegaram, trazendo em sua bagagem os costumes e tradições, tanto na culinária e no modo de vestir, quanto na arquitetura. Até hoje Mostardas guarda os resquícios de seus primeiros habitantes, nos casarios, nas ruas estreitas e no artesanato com lã.

Como chegamos já no anoitecer e estávamos cansados, fomos logo em busca de um lugar para passar a noite. Pergunta daqui, questiona dali, acabamos encontrando a pousada do ‘seo’ José Abel, um jipeiro que nas horas de folga brinca de atolar seu bugue nas dunas da praia. Era tudo o que precisávamos: um lugar para descansar os ossos, um bom banho e alguém que nos passasse todas as dicas do caminho, dos lugares a serem visitados e de como chegar na estrada do inferno.

Ao amanhecer já estávamos rodando pelas ruas, visitando os casarios antigos e tentando contato com o Márcio e o Miguel, que já deviam estar em Rio Grande.

Enquanto aguardávamos as comunicações, resolvemos seguir pela praia até o Farol de Tavares. Foram apenas 18 km, onde encontramos uma tartaruga marinha e um golfinho mortos na praia, o esqueleto de um barco, e até um dodge semi-enterrado na areia. As gaivotas faziam revoadas na passagem da Land Rover, e os pescadores aproveitavam o sol fraco da manhã para desenterrar mariscos na areia. O litoral gaúcho não tem o esplendor das praias de Santa Catarina, mas a tranquilidade que encontramos lá é inigualável.

Depois de chegar ao farol e descobrir que não se podia visitar o interior da construção, resolvemos voltar para Mostardas, passar na secretaria de turismo do município e pôr novamente o pé na estrada rumo a Rio Grande.

Na central de informações sobre locais de visita na cidade, descobrimos que havia um outro farol na região. A diferença é que este ficava na Lagoa dos Patos e era quadrado, e não cônico como de costume.

Seguindo a vontade do Kaminski de conhecer o tal do "farol quadrado" (que segundo ele é uma raridade), nos embrenhamos em uma estrada arenosa e esburacada. Plantações de arroz onde garças escondidas deixavam apenas seus compridos pescoços de amostra cobriam toda a margem do caminho. Uma visão incrível da força agrícola do estado gaúcho.

Apesar de estarmos com um carro que aguenta qualquer tranco, desistimos de ver o farol. A estrada era muito ruim, e o obelisco ficava há 46 km de distância, o que iria atrasar todo nosso roteiro. Sendo assim, fizemos meia-volta, pegamos novamente a 101 e entramos na estrada do inferno deixando os casarios de Mostardas para trás.

Estrada do inferno
O nome já diz tudo. Considerada a pior estrada brasileira, o trecho da BR-101 que liga Mostardas a Rio Grande é realmente um teste para os motoristas mais audaciosos. Coberta de areia fofa e alagadiça existem pontos onde até trator atola quando chove. O Kaminski foi quem gostou da brincadeira de ‘rebolar’ a traseira do jeep nas poucas curvas do caminho. Parecia até uma criança numa enorme caixa de areia. Eu por minha vez tratava de filmar e fotografar as piores partes do trajeto. Tudo para registrar as condições da rodovia que teima em dificultar o transporte na região.

Rio Grande
Cidade histórica, berço da colonização do estado, Rio Grande hoje é famosa pelo porto, pela praia do Cassino, e pelo assassino da praia do cassino. Ela lembra um pouco as agitadas "praias-points" do verão catarinense; é uma espécie de Camboriú gaúcha.

Ruas arborizadas e praias de águas mansas são marcas registradas da cidade, que recebe um número considerável de turistas vindos de toda região sul, da Argentina e do Uruguai.

Chegamos em Rio Grande (Kaminski e eu) por volta das 17h00. Apressamos o pé na estrada, vindo de Mostardas, para poder pegar o último embarque para a cidade. A travessia foi tranquila, mas o estado de conservação da balsa era de fazer os pelos ficarem em pé.

Nossa sorte foi que um carro da marinha também estava fazendo a travessia, e isso fez com que a tripulação do barco cruzasse o rio com mais calma e paciência, colocando calços nos pneus e deslizando suavemente sobre a água. "São eles que fazem a vistoria das embarcações, inclusive dessa balsa, por isso temos que ir com calma", me disse depois o ‘imediato’.

Encontramos com os dois desgarrados (leia-se Márcio e Miguel) na praia do vagonete, e aproveitamos para dar uma volta nas engenhocas movidas a vento, que deslizam a uma velocidade de 70 km/h sobre os trilhos instalados no molhe, uma das principais obras de engenharia do século XIX – perdendo apenas para o Canal do Panamá.

São quatro quilômetros mar adentro, onde a vista das tempestades que se formam no horizonte e dos barcos partindo e chegando do porto, é fantástica. Nas margens da ‘ferrovia’, os pescadores fazem zumbir seus anzóis que caem barulhentos na água agitada, em busca de garopas. "É um dos melhores lugares para pesca amadora", explica Josias, condutor do vagonete.

Depois do passeio fomos conhecer o chalé onde iríamos tomar um banho e dormir. Um lugar aconchegante, que o primo do Miguel - nativo da cidade - arrumou para nós. Condomínio fechado, bar, salão de jogos e piscina. Espaço mais que suficiente para quatro pessoas, e tudo por apenas R$ 80. É a vantagem de ter um conhecido na cidade.

Depois de tomar um bom banho, dar uma conferida no telejornal e forrar o bucho com um bom galeto em um dos restaurantes da cidade, só restou dormir para enfrentar a jornada do dia seguinte. Nosso destino: Cabo Polônio.

Parque do Taim
Você já imaginou cruzar 30 mil hectares de terra em uma interminável estrada em linha reta, cortando uma reserva com jacarés, garças, capivaras, lontras e biguás, entre outras espécies animais? Pois essa estrada existe e fica na divisa dos municípios de Rio Grande e Santa Vitória do Palmar. É a reserva do Taim, onde animais nativos e migratórios encontram abrigo em meio à fauna preservada.

Uma beleza exuberante de um banhado azul enche os olhos de quem trafega pelo local. Garças e pelicanos disputam território, cavando pequenos animais no charco. Jacarés e capivaras convivem pacificamente, e o sol encharca de luz as penas negras dos biguás. É um balé de cores e cantos que só mesmo vendo para acreditar.

Chuí
Chegamos ao Chuí perto das 10h00. Região de fronteira, o município não tem apenas o nome estranho. A impressão que tive é de que tudo é um pouco estranho na cidade.

De um lado da rua, é Brasil; do outro, Uruguai. De um lado você come bem por um preço módico; do outro, um sanduba pode custar até R$ 4. De um lado o telefone celular funciona; do outro, uma voz em castelhano lhe diz que a ligação está errada... coisas de fronteira (acho).

Além disso, o Chuí parece um grande Paraguai. Barracas que vendem desde fósforos até peças para carros cortam o meio da rua, como um mercado persa. As lojas pululam de turistas olhando tudo e comprando mais ainda. Casas de câmbio surgem a cada esquina, prontas para converter reais em pesos uruguaios que mais parecem os antiguíssimos cruzeiros verde-amarelos.

Como não podia deixar de ser, trocamos alguns reais, fizemos algumas compras, e partimos para o almoço. A parillada, tradicional churrasco Uruguaio, foi decisão unânime na hora de escolhermos o que comer; o restaurante, não.

Achando o preço um pouco salgado demais, eu e o Márcio deixamos Miguel e Kaminski enchendo a barriga e os olhos em um restaurante bem arrumado e fomos procurar um ‘buraco’ menos capitalista. Encontramos um que fez um rango a contento por menos da metade do que o outro pedia, e logo nos abancamos em uma das muitas mesas existentes no mal iluminado salão do recinto.

Abro aqui um parênteses para dar uma dica aos viajantes: sempre olhem o banheiro do estabelecimento. É através dele que se mede o grau de higiene do local. Mas atenção, não confunda limpeza com beleza. O sanitário pode ser velho e precário, mas se estiver limpo, pode comer com tranquilidade. Foi o que fizemos.

Fome matada, últimas ligações feitas do Brasil para os familiares, partimos em direção ao Cabo Polonio.

Cabo Polonio

Saindo do Chuí seguimos cerca de 70 quilômetros pela Ruta 9, até Castillos, de onde pegamos a estrada 16 para chegar na rodovia do litoral (chamada de Ruta 10). Ponho todos esses números aqui, pois no Uruguai a única forma que existe de se chegar a algum lugar é sabendo em qual rodovia você está.

Nessas alturas do campeonato o Márcio já estava voando baixo com a ranger, enquanto Kaminski e eu íamos mais tranquilos, apreciando cada detalhe da paisagem, porém sem perder de vista nossos companheiros.

Só existe uma maneira para se chegar em Cabo Polonio: pagando. É que a área, apesar de ser Parque Florestal e de não ter dono (nenhum terreno do local tem escritura ou é de propriedade de quem mora nele), é explorada turisticamente por seis empresas de "translado", que levam os passageiros em suas camionetes e caminhões 4x4, até a beira do mar. E não há a menor possibilidade de seguir pela estrada com carro próprio.

Sendo assim, pagamos os R$ 15 cada um, e fomos chacoalhando na caçamba, enfrentando uma ventania que teimava em jogar areia nos olhos. O desconforto do transporte era pior que a estrada (Kaminski que o diga; ele e um prego solto no banco não se deram muito bem durante o trajeto).

Mas, apesar dos pesares, a primeira vista de Cabo Polonio compensa. Pequenas casinhas feitas de todos os tipos de material, um mar azul, um antigo farol e a costa rochosa surgem logo depois de uma curva, dando as boas-vindas aos visitantes.

A imagem parece uma volta no tempo. Tudo é precário. A água vem de reservatórios de chuva e não há luz elétrica (exceto a que alimenta a poderosa lâmpada do farol).

Desembarcamos em frente a um precário barraco de madeira e em nossa ânsia de encontrarmos os lobos-marinhos, seguimos até a beira da praia, e para nosso espanto, o "melhor lugar do mundo para se ver lobos" (como diziam as propagandas), estava vazio.

‘Los lobos’ descansavam em uma ilha rochosa há alguns quilômetros da costa, sem se importar com a distância que havíamos percorrido só para vê-los. Nossa sorte é que não nos deixamos abater por intempéries, e aproveitamos para caminhar pelo vilarejo, descobrindo os pequenos "milagres" de Cabo Polonio.

O farol foi a primeira parada. Com 37 metros de comprimento, mais de 300 degraus e um aperto de quebrar a costela, foi um sufoco conseguir subir até o topo sem parar para tomar fôlego. Claro que a vista do alto compensou. Casinhas minúsculas e pessoas do tamanho de formigas dividiam o espaço lá embaixo, enquanto no topo o vento fortíssimo parecia querer nos arremessar por terra.

Eu, que já tenho um medo natural de altura, preferi ficar do lado onde menos ventava, agarrado nas grades de proteção enquanto fotografava.

Além do prazer de admirar a vista, o topo do farol proporcionou a vantagem de ter uma noção maior de Cabo Polonio. Do alto pode-se perceber o quão minúsculo é o lugar. Pouco mais de 100 casas, não muito perto umas das outras, dividem o espaço pequeno e isolado do Parque Florestal (que de floresta não tem nada). A areia cobre quase que toda a região, e o vento que sopra do mar teima em jogá-la sem piedade sobre tudo.

Cabo Polonio é o típico lugar que te deixa a sensação de que é muito bom viajar para lugares já conhecidos e que te agradam, mas que é muito melhor conhecer novas paragens e novas pessoas. Não encontramos os lobos marinhos, mas saímos de Cabo Polonio com a certeza de que a viagem valeu a pena.

Punta Del Diablo
Durante a volta de Cabo polonio resolvemos seguir com mais calma, para aproveitar o tempo que tínhamos ganho adiantando o horário de regresso do Cabo, parando para conhecer os vilarejos e locais mais interessantes do litoral uruguaio.

Assim, fomos parar em Punta Del Diablo, um lugar de nome tenebroso, mas de uma beleza incrível.

Pequenas casas com cobertura de palha resistem as ondas e ao vento, que quebram nas rochas do litoral, lembrando as casas gaulesas da HQ ‘Asterix’. Só falta mesmo os javalis e os soldados romanos.

É um desses lugares em que a gente tem que planejar uma volta um dia desses.

Agua Dulce
O pequeno município de Agua Dulce foi nosso local de pernoite na volta de Cabo Polonio. A princípio pensávamos em seguir direto até o Chuí, mas como a noite chegava rápido e havíamos parado no vilarejo para conhecer, resolvemos montar ali mesmo nosso QG de descanso.

O que nos chamou a atenção para Agua Dulce foi a arquitetura do local. Diferente de Punta Del Diablo, mas com uma beleza igual, o município recebe esse nome por ter muita água potável em seu subsolo.

Casas coloridas parecendo castelinhos formam um intrincado beco de vias estreitas. Sem nem mesmo perceber você acaba passando pelos quintais das residências, achando que está em uma viela de acesso a rua principal.

Quando fomos procurar um lugar para dormir, não esperávamos encontrar grande coisa, pois o ‘ar’ do ambiente lembrava muito uma dessas cidades que sequer aparecem no mapa. Mas para nossa surpresa, arranjamos uma pequena posada por US$ 15 cada quarto para duas pessoas. Uma pechincha para os padrões uruguaios.

Como não podia deixar de ser, tomamos nosso banho, e enquanto esperávamos a fome bater, aproveitamos para percorrer a cidade e tirar algumas fotos (é claro). Depois de bater muita perna, resolvemos parar em um restaurante e pedir algumas pizzas para variar um pouco o cardápio.

Enquanto comíamos, um leve som de batuques ficava cada vez mais alto. "É o carnaval", me avisou o garçom do lugar, enquanto trazia meu refresco de pomelo, uma espécie de laranja uruguaia (não experimente, é muito ruim).

Logo a rua estava tomada por um grupo de percussão, que fazia vibrar o couro dos atabaques, timbaus, repiques e sei lá mais que sorte de instrumentos, enquanto um senhor grisalho dançava vestindo fraque. Dançava é modo de dizer; as tremedeiras e trejeitos do velho dançarino lembravam mais um enfarto ou um ataque do que qualquer outra coisa. Aliás, só pude perceber que não era um enfarto pelo sorriso que ele trazia no rosto enquanto puxava pela mão uma mulher vestindo um longo preto de renda.

Logo atrás do cortejo vinha outro homem trajando fraque e gravata borboleta. Mas esse não dançava tão escandalosamente, pelo contrário, parecia um daqueles barmans de antigos westerns, com a cabeça calva. O grupo rendeu muitas risadas, mas a música contagiante me fez esquecer da cena hilária e quando menos percebi estava seguindo o grupo com um gingado meio tímido nos pés.

O problema em acompanhar aquela romaria sonora foi quando descobriram que eu era brasileiro. Não sei porquê todo mundo pensa que brasileiro sabe sambar e tocar tambor. Me livrei dizendo que não podia, que estava com a mão machucada, e acabei por ficar só no ouvido mesmo. Foi divertido, e Agua Dulce vai ficar com carinho na minha memória.

Fortaleza de Santa Tereza e Forte San Miguel
Marco da história bélica do Uruguai, a Fortaleza de Santa Tereza começou a ser construída pelos portugueses, em 1762, para impedir a entrada dos espanhóis na região conhecida como Castillos Chicos, que dava acesso à passagem de La Angostura, na época a única via de acesso ao país

A idéia não deu muito certo, e em 1763 os espanhóis já haviam penetrado no local e assumiam as rédeas da construção da fortaleza.

Mas, mais do que de história, a Fortaleza de Santa Tereza é feita de sensações. É quase impossível não ouvir os ecos das batalhas ou imaginar como era a vida dos soldados dentro das muralhas de pedra.

Ainda hoje o depósito de pólvora, os alojamentos, a capela e as várias salas de comando são utilizadas pelo exército uruguaio, que divide o espaço com os turistas dentro dos muros. É uma parada que vale a pena ser feita. Mesmo porque a Fortaleza fica dentro de um parque nacional que abriga ainda dois museus e uma área de camping com luz e água em cada lote de terreno, dois restaurantes, praias, supermercado e até um cyber café. Tudo por US$ 8 a diária.

No Forte San Miguel a exuberância não é tanta. Menor que a Fortaleza de Santa Tereza, a fortificação foi construída antes (em 1734), pelos espanhóis, com o intuito de proteger a mesma área da Fortaleza: a passagem de La Angostura.

Mas, ao contrário da Fortaleza, o Forte San Miguel foi destruído durante os muitos combates na região. Sua restauração começou em 1927 e terminou em 1937, quando foi declarado Monumento Nacional.

Apesar do tamanho diminuto, San Miguel tem mais cara de forte – ao menos do estereotipo de forte que conhecemos dos filmes. Quase se pode ver El Zorro pulando de telhado em telhado enquanto um sargento Garcia berra com os soldados no pátio. O difícil dentro dele é conseguir fazer uma foto ou uma filmagem sem que vários turistas apareçam nas imagens. O Forte San Miguel também possui dois museus.

O regresso
Quando chegamos ao Chuí, e paramos na aduana para registrar nossa saída do país, resolvemos, eu e Kaminski, entrar novamente no Uruguai. Sendo assim, deixamos nossos companheiros seguirem sozinhos para Ponta Grossa e, como tínhamos mais tempo livre do que eles, pegamos novamente a estrada, rumo a Punta del Este.

A descida foi cansativa. A interminável rodovia em linha reta fazia o sono provocar nossos ânimos. Assim, enquanto o Kaminski dormia no volante eu atendia da estrada, avisando, vez ou outra, da chegada de uma das raras curvas ou rotondas.

Nos perdemos um pouco no trajeto, paramos para pedir informações, compramos um mapa e no entardecer, chegamos na jóia do balneário uruguaio.

Me desculpem, mas não há como descrever a cidade. Punta del Este é mágica. Brilha como um diamante e é igualmente cara.

Nossa primeira preocupação foi procurar um lugar para dormir. Paramos em um hotel, e a diária era de US$ 70 no quarto mais simples. Falamos com o recepcionista, dissemos que achamos barato, demos uma desculpa qualquer, e voltamos a percorrer a cidade (se há um lugar no mundo onde não adianta pechinchar, esse lugar é o Uruguai).

Como alternativa, resolvemos seguir o conselho de um casal que encontramos em Cabo Polonio, e que acabamos por reencontrar no porto de Punta, e seguir para Maldonado, um município vizinho, onde tudo deveria ser mais barato – e era.

Maldonado
Quando chegamos em Maldonado o céu já começava a escurecer. Nos instalamos no Hotel Catedral que, lógico, fica ao lado da Catedral, tomamos um banho e resolvemos dar uma volta pela cidade e depois seguir até Punta del Este, para admirar as luzes da cidade.

Durante o trajeto fizemos os planos para a ida de barco até a Isla de los Lobos, onde vive uma colônia com mais de 300 mil lobos marinhos. O que não vimos em Cabo Polonio veríamos em Punta del Este.

Na volta de nossa ronda noturna paramos em uma central de atendimento ao turista em frente ao hotel. Quem nos atendeu foi uma senhora muito simpática, mas muito enrolada, e acabamos por conseguir as informações que queríamos nos panfletos e folders que ela nos deu.

Maldonado é um lugar aconchegante. As ruas são estreitas, a arquitetura é antiga, e o povo é muito cordial. As sinalizações de trânsito é que são um pouco esquisitas mas, como em castelhano esquisito é bom, não ligamos muito para isso.

Voltamos para o hotel com a idéia fixa de que já que estávamos ali, iríamos – por US$ 30 cada – até a ilha para tirar quantas fotos dos lobos marinhos fossem necessárias. Só não imaginávamos que seria preciso ficar mais tempo em Punta del Este do que o planejado.

Punta del Este
É durante a noite que Punta del Este revela todo seu esplendor. Luzes coloridas, cascatas em frente ao cassino, jardins de mansões iluminados e shows de águas em fontes reluzentes se espalham por toda cidade, acompanhando o canto da praia brava, ou a tranquilidade da praia mansa.

Apesar de toda a riqueza e a exuberância, o índice de criminalidade e violência em Punta é quase nulo. Pode-se passear com toda tranquilidade pela beira da praia ou pelas passarelas das dunas sem se preocupar com assaltos ou outro tipo de agressão. Enfim, é uma maravilha.

Na manhã seguinte a nossa chegada fomos até o porto procurar por um barco que fizesse o passeio até a ilha dos lobos. Encontramos um iate que nos levaria com todo conforto, mas só no dia seguinte. A embarcação estava impedida de sair por causa da maré baixa e dos outros barcos atracados no local que haviam trancando o caminho.

Como não tínhamos previsto tanto gasto extra, a solução foi procurar um lugar mais barato para passar a segunda noite em Punta del Este.

Encontramos um camping em La Barra. Local aconchegante, com luz elétrica, banho com água quente e um mini mercado para as compras essenciais. Pagamos US$ 8 cada, mais US$ 1 pelo estacionamento, e montamos as barracas por ali mesmo.

Foi uma noite calma e bem dormida, ao contrário do que eu esperava, afinal, barraquear nem sempre é confortável.

Saímos do camping, tomamos um café e rumamos para o porto, embarcar no ‘nosso’ iate. Confesso que se eu soubesse o que me esperava, tinha ficado no cais, esperando a volta do Kaminski.

O barco seguia ao rumo das ondas como uma casca de noz em uma bacia. Parecia uma montanha russa, e meu estômago foi subindo, até chegar na corcunda. Sensação horrível e indescritível.

Quando chegamos na costa de ilha eu já estava verde, e a "marinhomoça" (que baita neologismo) me trazia água e panos molhados para manter minha integridade física enquanto fotografava. Consegui mantê-la até fazer as fotos que queria e depois de uma longa passada pelo banheiro da embarcação, desmaiei no meio do corredor e virei alvo dos cliques da máquina do Kaminski – ossos do ofício.

Lá fora os lobos faziam gracinhas, nadavam junto ao barco e gritava muito. Lá dentro eu dormia um sono tranquilo.

Voltamos ao porto, desci do barco agradecendo a Deus por chegar em terra firme e já subimos na Land dando adeus a Punta del Este (este é mais um lugar onde terei que voltar qualquer dia desses).

Segunda noite em camping
A princípio pensávamos em parar para o pernoite em Punta del Diablo ou Laguna Negra. Como conseguimos ganhar algum terreno na volta, retornando pela praia, esticamos o trecho e fomos parar no camping da Fortaleza de Santa Tereza.

Armamos as barracas, tomamos um banho, fomos até o restaurante, demos uma olhada na praia e fomos dormir. Quer dizer: achávamos que íamos dormir.

Quando chegamos em nosso "terreno", encontramos nossos vizinhos de barraca acendendo uma fogueira e gritando para que fôssemos beber uma cachaça com eles. Como cachaça é comigo mesmo, não recusei o convite.

Todos eram muito ‘boa gente’ e faziam parte de um time de futebol de Montevidéo. "Nosso time é o Pina Run, e fomos campeões. Anota aí para você colocar na matéria", me dizia Federico Rodrigues, que ainda insistiu para que tirasse uma foto da equipe e colocasse na página. Como eles pagaram a bebida, aí está a foto dos "pernetas" – como disse o Kaminski.

Aliás, o Kaminski não gostou muito da galera. Só porque fizeram algazarra a madrugada toda bem ao lado da barraca dele, obrigando-o a dormir ao volante novamente durante o trajeto do dia seguinte.

Torres
Nossa segunda parada na volta ao Brasil foi em Torres. Sempre ouvi falar da cidade, e tinha até uma certa curiosidade em conhece-la, e acabei descobrindo que Torres não tem nada de mais.

Algumas dunas, uma praia bonita, mas muito comum. Não digo que não tenha valido a pena, mas...

Bem, conseguimos encontrar um bom local para dormir em um camping fazenda logo na entrada da cidade. Estávamos de volta ao Brasil e já retornamos ao jeitinho brasileiro de pechinchar. Conseguimos um desconto e ocupamos um chalé com banheiro e pernilongos. Nada mal por R$ 10 de cada.

Demos uma volta pela cidade, voltamos para o camping e dormimos feito dois bebês (babando a noite toda).

A volta
O melhor de uma viagem longa é sempre o voltar para casa. O caminho parece mais bonito, a estrada parece mais curta e tranquila. E sempre fica a vontade de descobrir um novo lugar para ir. Que mais se pode dizer?

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